Entre continentes

Vassoura, rodo e pá

Embora nos últimos anos a dinâmica de bairro tenha diminuído de forma considerável, aqui onde moro ainda é comum no dia-a-dia escutarem-se vários vendedores a anunciarem os seus produtos. Por vezes obrigando a pausas nas comunicações, em particular quando estou em reunião ou aula online. Convém dizer que em Portugal, lá na aldeia, também se mantém a presença de alguns vendedores, muito embora seja uma presença quase residual. É um vendedor de carne, não lembro se às terças-feiras, e um vendedor de fruta, ao Domingo ou ao Sábado. Sei que no caso da fruta vale muito a pena. A minha mãe comprou-me uma caixa de maçãs e um melão, andei a comer fruta o tempo todo. Não passo sem fruta.

Aqui no bairro de Mirassol, em Natal, quando cheguei em 2016 era grande o movimento. Antes das 7 horas passava uma senhora de bicicleta a vender "tapioca e feijão verde". Já tinha alguma idade, um pouco antes da pandemia deixei de escutar ou de a ver na rua. O pregão de uma senhora que todos os sábados parava aqui no cruzamento foi o que mais me intrigou. Levei anos para o identificar. Afinal era um simples "Cheiro verde", cujo significado depois precisei de descobrir. Basicamente vendia pequenas verduras, desde ervas aromáticas a outros produtos alimentares que, assim creio, a própria produzia. Antes da pandemia a adesão já ia diminuindo, acabou por não aparecer mais.

O perfil do bairro mudou e os hábitos de consumo também. Acredito que parte do público-alvo no caso da tapioca eram estudantes. A oferta de habitação para estudantes aumentou, mas o bairro consolidou-se como de classe média com a recuperação de várias habitações. Por outro lado, a venda através de aplicativos, em particular Uber, não fidelizou os novos residentes/estudantes na venda direta. 

Havia muitos outros vendedores, alguns continuam a aparecer diariamente. Os vendedores de gelados, o chamado picolé, surgem sempre por volta da hora de almoço e são dos poucos que surgem também ao domingo. São em menor número, mas a prática mantém. Já não dizem Picolé caseiro Caicó, pois as iniciais têm má fama. No fim da tarde tinha muitos vendedores de pastéis salgados e bolos, actualmente é menos frequente. O que se mantém é a venda de fruta, passam sempre um ou dos vendedores em carrinhas VW dito pão de forma. O mesmo acontece com vendedores de água e gás. Normalmente compro a um deles. Na verdade são dois, o motorista mais idoso e o ajudante. 

Os carros de vendas ou de som continuam a passar e por vezes são bastante inusitados nas propostas. Numa cidade no outro extremo do estado, em Pau dos Ferros, a primeira vez que ouvi um carro de som a anunciar os detalhes de um funeral fiquei sem saber se ria ou chorava. Apesar de ter percorrido dezenas de cidades somente em PdF (Pau dos Ferros acompanhei essa prática. O que se pode também dever ao facto de visitar a cidade em média duas vezes por ano, permanecendo cerca de 2/3 dias. Nos primeiros dias de Outubro espero ir novamente, tenho uma turma de pós-graduação da Universidade do Estado à minha espera.

Nos cerca de 2 anos que morei também em Campina Grande, no estado vizinho da Paraíba, não tinha esse comércio, mas também não era necessário, morava no Centro, a poucos metros de dois supermercados, com a feira no final da rua e um mercado de fruta na rua acima. Sem esquecer a própria venda de rua, lá tem muitos carros puxados manualmente que vendem fruta. Acredito que nos bairros mais populares ou de classe média a dinâmica seja como aqui no bairro. O que mais se destaca em Campina Grande, que é raro ver-se, são os anúncios pintados em qualquer lugar, a anunciarem que a pessoa pinta publicidade nas paredes.

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