Completo em breve 37 anos da minha trajectória fora da aldeia. O amor sempre foi o impulso para várias mudanças, mas a transformação resultou sempre da redefinição de objectivos e metas. Assim foi com a decisão de casar no dia 16 de Setembro de 1989. Assim seria em parte do impulso de mudar de país. Nem tudo deu certo na catarse sentimental, mas a vida é mais do que qualquer lamento dos desencontros do coração. Nem tudo tem sido fácil nas múltiplas dimensões. Nem sempre os laços significaram apoio. Mas quando acreditamos ter um caminho a percorrer nada justifica desistir. Depois tem outra dimensão quase oculta. A estima e apoio das amizades de uma vida presentes por todo lado onde passei. Amizades em sentido lato e a estima de pessoas quase anónimas com as quais me cruzei.
Tem sido uma trajectória que muito me deixa feliz, ainda assim alguns episódios foram particularmente difíceis. Entre estes, destaco: as dificuldades para me reerguer após optar me separar; o falecimento da minha avó no dia 1 de Fevereiro de 2001, foi extremamente marcante, pois era o dia do meu aniversário e a primeira chamada que recebi trouxe essa notícia; os desencontros na chegada ao Brasil e algumas dificuldades posteriores para me manter no país constituem outro conjunto de dificuldades.
Não esqueço nisto as conquistas, não apenas os diplomas, o desempenho profissional e a sobrevivência material. A estima, o reconhecimento e a confiança adquirida são os principais pontos a salientar.
Não esqueço todo caminho. Fui pastor em criança, trabalhei na agricultura na adolescência e em 1989 mudei-me para Queluz, na época ainda sem perspectivas profissionais e sem terminar o ensino secundário. Em 1992 começo a trabalhar como segurança no aeroporto de Lisboa, em 1993 entrei em Sociologia no ISCTE. Têm sido muitos os ofícios, exercidos sempre com satisfação por integrar cada um. Na vida académica somente não fiz concurso, de resto completei várias etapas, da licenciatura (no Brasil seria graduação), ao mestrado, doutoramento, pós-doutoramento, professor visitante júnior e professor visitante sênior. Tem sido um percurso de enorme riqueza.
Os últimos dois anos e meio têm sido divididos entre duas universidades (para não dizer três, mas nesse caso sem efectiva formalização). O desafio logístico tem trazido desafios, mas as trocas e os papéis têm sido de enorme riqueza e encorajamento. Ainda que a idade pese e a diabetes nem sempre ajude só tenho a apontar coisas boas. Claro que um dia necessito reduzir, parar se necessário, ninguém é de ferro. Mas têm sido 37 anos de uma orgulhosa luta, de muita força e presença. Muita luz presente, muita luz da memória e da imaginação. Não tenho dedicado o tempo que gostaria à poesia e algumas áreas e produtos científicos, mas não exijo muito de mim quando me entrego totalmente.
37 anos de nova trajectória