Entre continentes

Já nos bastam outros dogmas e fantasias

Em termos de liderança partidária Portugal está na encruzilhada. O governo minoritário continuará a ter legitimidade de maioria, o que pode parecer estranho. Mas apesar do ruído do Chega e do PS nenhum dos partidos está em condições de ir a eleições para ganhar. Falam muito e alto, mas é para avisarem que está na hora de mudar a fralda. Acho piada a André Ventura quando diz que o partido está preparado para governar. Ele sabe muito bem que pode até formar governo, mas a entrada do partido em qualquer governo vai acabar-lhe com a chiadeira. Perderá o espaço de protesto. E o espaço para o partido fazer diferente requer experiência política e técnica, algo que não abunda no partido. Ideologia e propaganda não definem competência. Também acho piada a José Luis Carneiro, que tendo o perfil de boa pessoa sabe que não tem propostas alternativas e falta-lhe carisma para cativar os portugueses. Admito que é esforçado, mas não se vê no partido e em toda a oposição uma figura de destaque.
A sociedade portuguesa merece um amplo debate sobre temas que deveriam ser motivo de entendimento político. Aquilo que no Brasil dizemos que precisa de políticas de estado e não de governo, ou seja, ir para além dos ciclos políticos. A lenga-lenga de alguns militantes com uso de terminologias anti-woke, de ódio esquerdopata ou direitolas é para engasgar o boi. Gera ruído, mas é mais um passo atrás na discussão sobre o desenvolvimento do país. Seria interessante a organização de conferências supra-partidárias setoriais e regionais para desbloquear problemas crónicos. O impasse com o aeroporto é uma vergonha mundial. Os problemas do Serviço Nacional de Saúde deveriam envolver a sociedade portuguesa. O que aconteceu com os exames finais de acesso ao ensino superior vai ficar esquecido. A discussão sobre a sustentabilidade da Segurança Social serve apenas para justificar o pagamento de estudos. Também não se conhecem debates sobre o futuro da agricultura, do turismo e por aí adiante. A discussão política é de quiosque. Os jornais chegam pela manhã, as pessoas passam em frente do quiosque, olham para as "gordas" e comentam as manchetes. Com a agravante de actualmente o quiosque ser uma qualquer rede social de imagens ou vídeo.
Não adianta falar alto, dizer que o partido A ou B é diferente. Os partidos ditos progressistas não têm novas receitas para bolos, já tudo foi tentando. Os partidos conservadores também sabem que as soluções milagrosas têm um alcance curso e, sobretudo, sabem que o poder corrói. Estamos num beco sem saída, pois quem deveria trazer soluções, ou seja, os partidos pela representatividade social, acaba por aprisionar a cidadania. Os movimentos sociais independentes podem surgir como alternativa, mas isso exige um grau elevado de cultura democrática. Não podemos em aceitar o estado actual das coisas, nem acreditar em magia. Quem diz que a culpa está em votar-se sempre nos mesmos não está a apresentar alternativas, está a querer indefinir o processo democrático. De caos estamos cheios, precisamos de construir e não simplificar análises para erguer bandeiras sem propostas. Já nos bastam outros dogmas e fantasias.

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