Entre continentes

Feliz Dia dos Avós 

As efemérides valem o que valem e têm significado distinto em face das vivências de cada um. Não deixo de destacar esta em particular. Sou filho de emigrantes, o meu pai deu o salto para França, onde faleceu em 1977. A minha mãe partiu por volta de 1970 e lá ficou até ao início da década de 1980. Não cheguei a conhecer o meu avô paterno. Da minha avó tenho uma vaga ideia. 

Fui criado pelos meus avós maternos. Na verdade, o meu avô era apenas por afinidade. A minha avó ficou viúva muito jovem, perdeu o marido num acidente nas Minas, estava grávida do meu tio, a minha mãe era criança. Apesar da ausência de laços de sangue sempre me tratou como neto. Era uma pessoa conservadora, andou pela Venezuela e Brasil, sempre na perspectiva de adquirir pequenas propriedades, o que nas décadas de 1980 e seguinte perdeu todo valor. Também eram poucas e micro-propriedades. Apesar de conservador era uma pessoa que gostava de conhecer outras opiniões, era também curioso. Com ele acompanhei as transformações do 25 de Abril e outras iniciativas realizadas na aldeia. Era eu que o acompanhava sempre. 

A minha avó era o que agora se chama de liderança na aldeia. Algumas práticas não eu as conheci. Tanto estava no forno da aldeia como ia ajudar a lavar os defuntos, como tinha uns púcaros com ervas para afastar o bruxedo. Nunca entendi essas práticas, mas ela gostava. Era uma espécie segredo. Liderava também na vindima, na laje com a malhadeira e na apanha da azeitona. Só não era muito de festas, em tudo estava presente.

Quando a minha mãe regressou de França para mim era quase uma estranha. Somente a conhecia das férias de Agosto. Os meus avós para mim eram o meu mundo. Isto sem desfazer da minha mãe e outros parentes. Infelizmente não duram sempre. Foi muito duro perder a minha avó. Aconteceu precisamente no dia do meu aniversário em Fevereiro de 2001. Ainda hoje reforço que a minha alegria de viver e luta é uma homenagem ao meu pai e avós. Acredito sempre que sentiriam orgulho em mim.

A imagem é de portão na terra de uma casa onde vivi. Havia promessa de compra e venda, mas o proprietário faltou com a palavra. Ocupámos o espaço durante muito tempo como alugado, depois seguimos outro rumo.

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