Entre continentes

Testemunho

Gosto dos dias a correr devagar, não por défice de dedicação ou sentido. Pelo deleite da escolha e deambular livre do pensamento. Temos tanto menos das inquietações que rejeitados a quietude e o charme do silêncio. Qualquer momento de paz requer uma viagem interior no subtil instante do cruzar do olhar com a imaginação e com a memória. Levo uma vida de luta, mas sem competição e descontrole excessivo. Conheço o compromisso e o caminho, não quero apenas respeitar as regras. Gosto do sopro do próprio movimento, de espelhar as palavras perante as carícias da saudade e da intenção. Nem tudo se mostra com a racionalidade do termo e da consciência. Sou livre também quando me disperso e sou banal. Dou graças por não correr para a representação e à procura de um lugar que seja ele próprio criador. A minha abnegação não é conformismo ou conforto. A materialidade da vida é um lapso de intenção. Ainda sonho com um mundo melhor e com impulsos por conhecer e mudar. Encanta-me ouvir e contemplar. Como se as pessoas fossem estrelas no céu com a história do cosmos escrita na luz. O amor é ainda a utopia da convergência e dignidade. A capacidade de juntar e não apenas reproduzir. A entrega e definição é o marcador em qualquer circunstância. O sonho marca ainda a capacidade mobilizadora, a opção pela esperança e abertura de horizontes. Faz-nos falta a liberdade de querer. O ímpeto para fugir do império das coisas avulsas e permitir que as ideias não sejam apenas retórica. Por isso corro, caminho, sigo alinhado e desalinho, sigo por vontade, não para satisfazer opções.

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