Entre continentes

Saudades do tempo das colheitas 

Se tenho saudades de outrora não é por fracasso dos sonhos ou devaneio de alguma ideologia que deixou alguns corações e cérebros no passado. Tenho saudade do tempo das colheitas e da azáfama a que parte da comunidade aderia. A (des)casca ou descamisar do milho, assim como o malhar e o secar nas lajes comunitárias sempre juntaram muita gente. Velhos e novos, ninguém ficava em casa, por vezes pela frescura da manhã, muitas vezes no prolongar da tarde pela noite.

Acordei muitas vezes de madrugada e com a minha mãe e avó íamos cortar o milho antes da palha ficar áspera. Apesar das cautelas, que incluíam vestir roupa velha a tapar os braços, os cortes deixados pela palha poderiam acontecer. A casca poderia acontecer de imediato ou então no período do tarde. O momento das espigas vermelhas era simbólico. Ainda que na aldeia não houvesse nenhuma tradição organizada, quem encontrava uma espiga vermelha ia dar a volta ao monte de milho e cumprimentava toda a gente. Em alguns casos o acontecimento era simulado para que rapazes ou raparigas pudessem cumprimentar de novo determinada pessoa. Era sempre um divertimento. 

O trabalho não terminava ali. As espigas seriam levadas para a laje, onde acabariam por secar. Depois viria a malhadeira para as malhar. Em poucos minutos o tractor chegava e malhava o milho de várias famílias. Com o meu 1,85m estava sempre pronto para agarrar nas sacas de espigas e as colocar na malhadeira. Dias depois o milho seguia para a arca de madeira, onde permanecia até ter uso. 

A parte mais chata dizia respeito à palha. Era necessário voltar à terra, deixar secar a palha dita de toro para depois ser colocada em molhos (molho não é tempero) e arrumada na palheira, servindo de alimento sobretudo à burra. A palha de ponta era escanada antes, seca e arrumada primeiro. É uma palha de melhor qualidade. Como tudo era feito manualmente procediamos a essa divisão. Havendo dificuldade em arranjar espaço na palheira, alguma dessa palha era colocada em moreias, um amontoado vertical de palha, que bem organizada não deixava entrar chuva no interior. 

O momento da colheita e o restolho deixam saudade. Ainda que no restolho fosse ainda necessário apanhar grão a grão de milho e feijão. Eram dias de muito trabalho e dores nas costas, geralmente tentando antecipar a Santa Eufémia, que acontece a 16 de Setembro e poderia trazer as primeiras chuvas. Actualmente já ninguém cultiva os lameiros. A vinha mantém alguma actividade. O calendário está completamente mudado, tenho vizinhos preparados para a vindima, quando outrora acontecia no final de Setembro. 

1