Entre continentes

Lar, doce lar

É sempre reconfortante voltar à terra, revisitar família, amigos e lugares. Parti daqui em Setembro de 1989, embora nos anos anteriores tivesse a ausência do serviço militar e de saídas pontuais. Sempre me mantive próximo e activo na comunidade. Carrego muitos elementos da identidade local e regional, sempre reforçados pela distância e saudade. Mas também pelas próprias narrativas. Durante muitos anos colaborei com um jornal local, tive outras colaborações, depois escrevi um livro sobre a aldeia. Na verdade, assinado em nome próprio, mas uma produção colaborativa que envolveu toda a comunidade na recolhe de imagens e histórias.

Cada vinda é de coração cheio. A primeira coisa que faço é visitar esse Miradouro. O imensa laje com o passo ligado ao milho e outros cereais. A paisagem salpica a nostalgia e as memórias. A linha do horizonte é um quase infinito. Abarca as Serras da Estrela e Açor na vista Sul. A Noroeste o Caramulo está ali bem perto. Outrora tudo isto era pinhal e cultivo dos campos. Agora resta mato e javalis. Ainda assim a lonjura não altera o quadro. Já não se escutam as carroças nos caminhos, nem o canto dos resineiros. Sem árvores muitas nascentes secaram. Nas poças de água dos ribeiros sobram as rãs e libelinhas. As borboletas seguem o canto dos pássaros. A água fica agora parada, sem uso ou disputa. Nas fontes não tem espera nem namoro. A própria água não é aconselhada para consumo. Uma placa ostenta o aviso. Não saberemos se faz bem ou mal, apenas que não é monitorizada a qualidade. 

As ruas estão vazias. Restam os idosos na aldeia. Às 13 horas em ponto os sobrantes vão beber café na Associação local. Alguns jogam às cartas, outros cumprem o ritual. Aproveito para rever os abraços e ausências. Na nossa terra a vida ainda tem sabores e escolhas. Segue lenta no calendário. Nem tudo é perfeito, nenhuma disputa é esquecida, mas este não é o tempo de cobranças. É Verão, a brisa mal chega. A quietude é também de espírito e de reconforto. O amor tem escolhas. A identidade tem lugares. E os laços continuam a definir as opções.

Ainda que os compromissos me levem também a Lisboa e outros lugares, esta é a imagem da chegada, da recordação e da realidade do instante. Nem lhe chamo férias, o intervalo entre semestres é breve. De qualquer modo cada regresso é uma oportunidade para renascer.

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