Falava no fim do dia com a minha mãe, o que procuro fazer com frequência, pois mesmo por telefone se constroem laços, e ela queixava-se do calor, sobretudo do tempo abafado. Pode ser em virtude dos seus 88 anos, mas ela nunca se queixou do frio ou do calor. Como diz o povo "sempre foi rija". Pode ser uma alteração pessoal, mas o que é certo é que o clima mudou.
Ao contrário do que dizem os negacionistas, as mudanças fazem-se sentir em todas as escalas. Por vezes, as mudanças são mais profundas na escala local, teremos sempre casos e casos. Acho piada que dizem que lá na terra a temperatura não aumentou, faz é mais frio. A ideia de serem eventos extremos é também essa. Globalmente a temperatura aumenta, mas na escala local a cantiga é outra. Aqui pelo Nordeste, uma região maior que a Europa Ocidental, as áreas áridas têm avançado, tecnicamente para deserto, mesmo assim ainda se encontram discussões sobre o que são alterações climáticas e o que são regularidades climáticas associadas à região semiárida. Ainda assim, não creio haver dúvidas quanto ao impacto regional das actuais alterações climáticas. Em Portugal e em geral na Europa as mudanças têm ocorrido de forma mais rápida. Um dos indicadores que geralmente cito é do calendário da vindima e da apanha da azeitona. Desde que saí da aldeia em 1989 existe uma antecipação que em algumas campanhas chega a 2 meses.
Tudo isto não resulta do aumento global de temperatura. Nasci rodeado de pinheiros bravos e mansos, carvalhos, alguns sobreiros e várias outras árvores, raramente eucaliptos. No caso dos pinheiros, a extração da resina era um dinheiro extra para as famílias. No campo eram raros os trabalhadores assalariados, no caso das mulheres no máximo "davam uns dias fora". Esse dinheiro era o garante do sustento e dignidade. Em casos especiais, como o casamento de uma filha ou a necessidade de obras em casa as pessoas vendiam alguns dos melhores pinheiros aos madeireiros.
Tudo isso foi levado pelos sucessivos incêndios. Com o fim da mata desapareceram igualmente nascentes, minas, valas e poços onde brota água com fartura, praticamente todo o ano e sem poluição. Os púcaros de barro usados para apanhar a resina das "bicas" colocadas nos pinheiros eram vistos nas nascentes, onde todo mundo "matava a sapeira". A fartura de água definia também a riqueza em termos de biodiversidade. A mata desapareceu, o mato cresce sem limite, as giestas são mais altas que eu. Praticamente não se vê outra vegetação, até o tojo tem dificuldade em crescer. Esse é o território de javalis e raposas. Sobretudo os javalis são uma praga sem predador.
Além da alteração da época das colheitas, possível de comprovar nas cooperativas sobreviventes. A pequena agricultura quase desapareceu e parte da culpa é dos javalis e outras pragas. Já não falo das secas, chuvas e geadas fora de época. As mudanças do perfil demográfico são outra conversa. A imagem é da venda de castanhas portuguesas num supermercado de Natal. Por vezes aparecem também maçãs de Alcobaça. Azeite português tem sempre Galo e Andorinha.