Entre continentes

Sonho rasante

Qualquer sonho rasante é agora uma memória 
Um resquício de velhos acontecimentos 
Parte dos quais apenas vividos por ancestrais
Agora a vida é um desfilar de perfis e posturas
Quadro performativos que exibem virtudes
Não existem defeitos na exposição contemporânea 
Tudo é deixado à reclusão da intimidade 
O Homem público é belo e cheio de recursos
O Homem capaz enfrenta risco de segurança, de doença mental e de sobrevivência 
Somos cada vez mais projectos de aparência 
Os vizinhos do lado a viver à grande e a mostrarem como vivem
Enquanto isso o homem pai de família faz as contas à vida
Chora e luta para além do que é visto
A realidade não é apenas real quando deixa calos nas mãos 
E setas no coração que o próprio Cupido desconhece
A realidade é também a do exacerbo, da provocação do luxo
Desonrar o destino não é mais desflorar uma mulher virgem
É não exibir os atributos materiais que o pecado não comporta 

José Gomes Ferreira 

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