Entre continentes

Olhares constantes

Entendo a tensão política, não me posso meter, não me quero meter. Tudo isto afecta o equilíbrio, a saúde mental e em diversos casos as relações interpessoais. As últimas semanas têm sido muito intensas, o que só por si já garante desgaste suficiente. O maior receio é sempre a saúde. Piso o risco no instante em que não digo que não a um convite ou desafio alunos e colegas e ir mais longe. Tudo dará certo quando a vontade é puxada pela autoestima. 
Também não deixo de pensar em muitos momentos vividos. Não penso no que ficou para trás por falta de adesão. No que depende de mim luto e sigo. Não prendo ninguém no percurso ou na imaginação. Mudei muito nestes 37 anos desde que saí da aldeia em termos físicos e nos 28 anos desde que iniciei actividade como sociólogo. O mundo também mudou.
Percorri muitos quilómetros e muitas vidas. O coração permanece na aldeia. É onde o tempo passa lento e as memórias foram construídas de raíz. Não que não some todos os dias novas memórias e não faça novas amizades. São também a água pura que sacia a sede e controla a realidade. Mas outrora o mecanismo era diferente. Seguia o calendário dos dias e das horas. Acompanhava as sementeiras e as colheitas. Observa as rezas e as cantigas das ancestrais. Havia tempo de escuta e silêncio de pasmo. Provocava temporalidades como estimulava reflexões sobre a existência, a periferia e o lugar na história das gerações. Havia também figuras inspiradoras. Mulheres de avental e coração cheio. Analfabetas no formalismo, professoras na dedicação. 
A própria natureza surpreendia. Aparentemente rude e capaz de castigar, mas com uma beleza para além da função. E com os seus ciclos ajustados ao tempo longo do existir e resistir. Antes não era bom como dizem. Isso é marketing político para os ignorantes. Ainda assim o compasso era outro, as pessoas eram outras, a ambição, as expectativas e o risco eram outros. Qualquer jornal encontrado removido numa valeta era encanto e descoberta. Não havia o desperdício da provocação e exibição. Tudo se achava no gosto por conhecer, escutar e respeitar. As próprias rezas eram profanas, sem excluirem a vontade de Deus na voz dos homens, era cultura, junção, transversalidade e veneração abrangente. Agora a liberdade é reprimida ou acantonada a qualquer escola partidária. Temos medo de errar, medo de falar e ser rejeitados. A democracia é o palco expiação e do pecado.

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