Entre continentes

Regaço de avental 

Os meus pais emigraram, fui criado pelos meus avós maternos, tias-avós e bisavó. O contexto era de dificuldade, sempre recebi o melhor no afecto e aprendizagem para a vida.

Cresci na sombra da voz e da atenção 
Sou filho do campo e da vida
Fui criado por mulheres de idade
De cabelo branco cor do vento
De olhos serenos e amplos de atitude
Com mãos calejadas e coração trêmulo 
Mulheres de avental e luto da partida 
De gestos dignos e determinados
Foram avós, mães e tias nos laços 
Ensinaram-me a contar as estrelas
E a apanhar cada grão de milho perdido no solo
Aprendi a agradecer e a amassar o pão
A remover a terra como quem liberta o mundo
Segui muitos dos passos na estima
Não me ensinaram as letras do alfabeto 
Também não as sabiam perdidas em espera 
Mostraram-me os caminhos e as escolhas possíveis 
Abriram todas as portas que a dignidade pode escolher
Chamaram-me para a mesa e para o regaço 
Acolheram-me sem apontar qualquer pecado

José Gomes Ferreira 

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