Entre continentes

Manifestações para enfrentar problemas complexos

As manifestações contra o custo de vida em vários países da União Europeia, incluindo Portugal, acendem vários alertas. Tem quem considere que são pessoas desocupadas e/ou oportunistas, ou até mesmo estrangeiros, talvez essa seja uma leitura apressada que não leve em consideração a conjuntura, o que não significa que não existam subgrupos com outras intenções. 
Primeira questão, os cidadãos dos Estados-membros da União Europeia atravessam um momento delicado em termos de orçamentos familiares. A situação não resulta apenas da subida de combustíveis e dos avultados investimentos em proteger a Ucrânia. Podemos considerar a ideia de policrise apressada por Maristella Svampa sintetizando as principais dimensões: a descarbonização, inicialmente associada à deslocalização de grandes empresas industriais, principalmente para a China, arruinou o sector produtivo europeu, com destaque para a indústria automóvel; a redução do investimento gerou quebras na produtividade, perda de emprego e redução de exportações; apesar disso, esses países continuam atractivos como destino para os imigrantes e para a elite internacional; essa atractividade, ligada a uma política migratória sem regras abriu as portas a novos imigrantes, que pressionaram o mercado do arrendamento, serviços de saúde e educação, entre outros.
Em parte em resultado dessa nova conjuntura temos outra e dentro da mesma ideia de policrise. Regista-se um aumento brutal pela propaganda de extrema direita, exactamente, contestando a imigração. Essa crítica é oportunista e a esquerda acordou tarde para o facto e para os erros cometidos. Não adianta dizer que os países necessitam de mão-de-obra, é necessário diagnosticar a procurar e planear o acolhimento. Nada disso foi feito, foi grande a balbúrdia. Perante o risco da extrema direita assumir o poder em vários países a esquerda vê na contestação dos cidadãos europeus uma oportunidade para se fazer escutar. Em particular em Portugal não vejo uma iniciativa de carácter orgânico que esteja na origem e alimente o processo. Ainda que os movimentos sindicais ligados à CGTP e parte da esquerda se façam escutar, assim como algumas figuras da sociedade portuguesa. A motivação está também ligada à controvérsia que envolve alguns governos, incluindo declarações do próprio primeiro-ministro. Esta entrada de partidos e movimentos parece ser uma colagem ao descontentamento, na medida em que a subida de combustíveis já era preocupante. Não é como dizem, algo trazido por pessoas que não trabalham, essa visão é retrógrada e não ajuda a encontrar soluções. As famílias da classe média e baixa são as mais afectadas.
Se a esquerda entrou tarde no processo e não está na moda, precisa controlar os agitadores. Quem mais lucrar politicamente com a desordem é  extrema direita. Não admira que existam agitadores infiltrados nestes movimentos. Ainda assim acredito que seja mais alguma esquerda a acreditar que qualquer ganho de visibilidade é boa. Não estou nada convencido disso, vejo muita cabeça perdida.
Independentemente ou não da partidarização das acções, é necessário olhar para as reivindicações e trabalhar em propostas de resposta. A receita neoliberal não serena os ânimos, é necessário trabalhar e discutir soluções, lembrando que estes problemas não se resolvem num mandato.

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