Sobre o que a comunicação social chama de acampada, vejo muitos erros na interpretação e no estabelecimento de culpa, bem como erros na actuação política. Primeiro, a ideia de que a culpa da crise da habitação é sobretudo dos imigrantes. Ouvir o ministro Nuno Melo dizer isso revela a sua desconformidade ao cargo.
Obviamente que o fluxo migratório acentuou o problema, mas já se vinha a sentir e agravou-se com os vistos gold. Não sendo especialista na área da habitação, não deixo de notar a total paralisia das novas construções em grande parte do país. Ao mesmo ligada a uma quase ausente aposta na recuperação urbana. Se não se constrói novo e não se recupera o existente vamos ter degradação e falta de oferta no mercado. Por outro lado, uma parte do património recuperado foi para alojamento local, o que frustrou o mercado de arrendamento.
Se a montante governo e autarcas usam esse argumento, a montante a acampada é interpretada como sendo organizada por pessoas que não trabalham, por grupos de imigrantes e organizações internacionais. Teria piada aceitar que afinal em Portugal os tais portugueses de raíz não têm motivos para se manifestar. Será o paraíso na Terra? Maravilha! Nem os deuses devem saber disso, mas a ser verdade é bom. O problema é que não é verdade. O problema não diz apenas respeito à habitação, mas como o custo de vida atrofia os orçamentos familiares e causa tensão nos membros. É a velha questão "junta-se a fome com a vontade de comer". Salários baixos, custo de vida elevado. Despesas adicionais com o custo do transporte, subida de preços generalizada. Despesas extras com a saúde e educação para fazer face ao desgaste dos serviços públicos. Tem um sem fim de causas.
A cereja no topo de bolsa está no alerta "cuidado com os grupos de brasileiros organizados". Estamos a falar de terroristas, de milicianos ou de pessoas preocupadas com o dia-a-dia? Pelo seu número e importância no conjunto da mão-de-obra activa em Portugal é natural que a comunidade brasileira se sinta afectada. Daí a escutar insinuações de alguns políticos na praça vai uma grande distância.
Este viés de interpretação do problema associado à acampada resulta em más decisões. A acção deveria ser política e não de expulsão pura e simples pela polícia. Não existem soluções chave na mão, mas a abertura ao diálogo ajuda a construir o futuro. Usar a força da lei é extremar posições e criar um episódio que pode aumentar de dimensão, até pelas razões expostas. O problema em causa não afecta meia dúzia de gatos pingados, desocupados e preguiçosos, afecta grande parte das famílias residentes em Portugal.