As redes sociais estão cheias de representações negativas de portugueses e de brasileiros. No caso de brasileiros a residir em Portugal o tema liga-se a diferenças culturais entre os dois países, que mesmo não sendo muitas geram preconceitos, que aumenta em face da rejeição geral de imigrantes por parte de alguns portugueses. E liga-se, obviamente, à questão do aumento da criminalidade, sobretudo motivada pela presença em Portugal de membros de facções criminosas.
Além destas questões existem representações muitas vezes por desconhecimento ou por mera vontade em gerar atrito. Diversas páginas geridas por brasileiros têm seguido esta última tendência, caracterizando Portugal como a Guiana Brasileira ou Pernambuco em pé. É gente que não tem mais que fazer e parece querer prejudicar os brasileiros residentes em Portugal, tendo em conta que repercute sobre estes. No caso dos portugueses o preconceito relativamente aos brasileiros é estrutural, ainda que se faça sentir negativamente nas últimas três décadas. O povo brasileiro sempre foi muito bem recebido em Portugal. Teve o episódio dos dentistas que foi resolvido. O facto das novelas brasileiras passarem na televisão portuguesa ajudou na aproximação. Os actores sempre foram bem recebidos. Antes deste fluxo migratório o episódio marcante foi das chamadas “Mães de Bragança”, que gerou um estigma relativamente às mulheres brasileiras, embora tenha a ver com um pequeno grupo que na época imigrava e se dedicava à prostituição. Para quem tem a memória curta, o mesmo preconceito existiu com portuguesas em Espanha.
Muito do preconceito português deve-se a desconhecimento. Tem um pequeno grupo que não segue determinado padrão e a partir daí a tendência seja para generalizar. O mesmo acontece com o facto de ser um povo ou não trabalhador. Cabe dizer que algumas destas representações são aceites no Brasil. Cabe dar uma olhada na obra do antropólogo Roberto DaMatta sobre o tema. A imensidão deste país e a sua heterogeneidade não deveria levar a generalizações, mas elas acontecem todos os dias.
Cada vez que conheço um pouco mais sinto que conheço ainda pouco do Brasil. E eu já tenho mais de 10 anos aqui e já percorri milhares de quilómetros. Conheço sobretudo o Nordeste e com maior detalhe os estados do Rio Grande do Norte, onde cheguei em Janeiro de 2016 e onde me tenho mantido, embora durante praticamente dois anos tenha vivido cá e lá, entre Natal e Campina Grande (na Paraíba). Actualmente tenho apenas residência na capital do Rio Grande do Norte, mas mantenho colaboração voluntário com a pós-graduação em Campina Grande. Ontem mesmo fiz o tal bate-e-volta Natal-Campina Grande-Natal, cerca de 280 kms cada viagem.
Temos tendência a achar que o Brasil é todo igual, mas também temos tendência a achar que o Nordeste é todo igual. Essa mesma representação é feita por brasileiros residentes, nomeadamente, nas regiões Sul e Centro-oeste. O Nordeste sempre foi pobre, ligado aos retirantes das secas severas que depois iam trabalhar para estados mais desenvolvidos. Actualmente o Nordeste é a região da produção de energia eólica e das praias mais procuradas do Brasil. A diferença entre estados é notada nas formas de ser, na linguagem (o português do Brasil não é todo igual), nas tradições, na estrutura social, na própria paisagem, etc. etc.

Sou suspeito nesta matéria, sou apaixonado pelo Nordeste. Conhecer mais também me faz lembrar um pouco de Portugal, tanto actual quanto da década de 1980. Tem muitas tradições portugueses, ditados é aos montes. Como português aqui só tenho a dizer bem de todo mundo. Sempre fui muito bem acolhido. Parte das pessoas não está habituado à nossa maneira de falar e acham que sou italiano, espanhol, gringo (EUA) ou de outro país. Mas a cordialidade e os diálogos sempre foram ricos e prazerosos. Ontem mesmo no regresso no Blablacar aconteceu isso mesmo. Nas primeiras palavras pensavam que seria italiano, depois toda a conversa foi muito agradável.
A imagem é da praia de Ponta Negra, em Natal, aqui a cerca de 3kms. Terei dezenas de outras imagens dos estados citados e outros que visitei, fica para outras partilhas,