Entre continentes

Regresso ao passado

Vivi o passado com consciência de o ter vivido e, sobretudo, consciência do meu lugar e das limitações sociais, económicas e geográficas. Não vejo nisso drama nenhum. O único drama foi ver os mais próximos partirem prematuramente. Tudo mais aproveitei ao máximo e sempre de conseguir ir mais longe. Embora, reconheço, que nem sempre soube qual o caminho, mas fui seguindo os que se apresentaram e nada tenho a lamentar.

Sempre fui um pouco bichado do mato. Um amigo diz que sou um solitário sociável, sempre assim foi. Talvez resulte do meu signo, sou aquário. A orfandade e a condição social também me levaram à observação e reflexão, sem medo de o fazer sozinho. A vida ensinou-me a perder a timidez, mas sempre fui tímido. Talvez dos ensinamentos e excesso de humildade da adolescência. Lembro com nostalgia os bailes na aldeia, adorava as músicas e o colorido das luzes, mas nunca fui dançar para o "dancing". Frequentei algumas discotecas na região, em particular no início da vida adulta. Aí já dançava e pulava. Fui várias vezes à saudosa Day After, inicialmente era o aproveitamento de uma oficina, depois era um mundo. Também frequentei muito o NB. Em Lisboa lembro do Absoluto, Alcântara e Frágil. Tinha uma discoteca que fazia parte do cinema mundial que frequentei algumas vezes. Gosto mais de bares, mas não deixei de frequentar algumas discotecas. No Verão íamos algumas vezes à Flashen, em Quiaios.

Apesar dessas vivências, o que mais me traz saudade dos momentos públicos são nas lembranças da Rua Direita, em Viseu, na década de 1980. Essa e outras ruas próximas carregam a imagem de um país que já não existe e, sobretudo, dos próprios momentos da adolescência. Apesar das limitações sociais e económicas sempre que podíamos íamos para Viseu. Toda a semana íamos à boleia pelo menos uma vez. Chegávamos a comprar livros e discos, a visitar no Verão a Feira de São Mateus e outras iniciativas, mas íamos para sentir que pertenciamos a muitos lugares. Novos lugares estavam ao nosso dispor, não só ali ao lado, mas também em Coimbra, Lisboa e onde se quisesse. Saí da terra para morar nos arredores de Lisboa com 24 anos e essas vivências foram determinantes para a fácil adaptação à realidade cosmopolita. 

Na terra após 2 anos na Força Aérea retomei o ensino secundário. Foi em Queluz que terminei esse percurso e pensei que poderia, de facto, iniciar o meu percurso académico. Com 26 iniciei as aulas no curso de Sociologia. Deixando essas questões de lado por agora, aqueles momentos no centro de Viseu eram energia vital e descoberta. A determinado momento comecei a comprar discos de firma sistemática, para o efeito passava com frequência na Discoteca Coutinho, esta loja de discos. Era literalmente uma loja de vão de escada, pequena, mas sempre com novidades nas áreas alternativas. 

Terei nos meus arquivos muitas fotografias do centro de Viseu, mas na hora nunca aparecem. A que uso retirei de uma notícia do jornal Notícias de Viseu sobre a Day After.

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