Nestes já quase 11 anos no Brasil já passei por muita coisa, tanto a nível estrutural, quanto profissional e pessoal. Cheguei com Dilma Rousseff na presidência, acompanhei a deposição e a subida ao poder de Michel Temer. Depois veio a presidência de Jair Messias Bolsonaro. Pelo meio aconteceu a pandemia da Covid-19, as restrições, aulas online e mais de 2 anos longe da família. Posteriormente Lula da Silva foi eleito presidente para um terceiro mandato.
Não me cabe tomar partido por A ou B, não tenho direitos políticos no Brasil. O posicionamento ideológico cabe aos brasileiros. Da minha parte passei um pouco de tudo, muitas passas do Algarve, muita insistência para chegar aqui. Não tenho a vida profissional assegurada, mas as conquistas alcançadas deixam-me muito feliz. De tudo que se fala mal do Brasil, eu só tenho a dizer bem. Claro que posso apontar defeitos e problemas. O que para mim é certo é que em Portugal não teria as oportunidades que tive. Nada foi fácil neste processo. Também sei o que é chorar de saudade e de incapacidade de enfrentar burocracias e injustiças. Graças a muita gente tem dado tudo certo. Mesmo que os meus dias e semanas me coloquem desafios de saúde para dar conta de tudo.
Este período eleitoral tem sido desafiador. Procuro ficar no meu canto, mas é muita informação de campanha que chega através de vários canais. A questão nem é se apoio ou não, mas "não ter saco" para tanta disputa. Nem falo no conteúdo, pois sabemos que se debatem pessoas e não propostas. Claro que estou preocupado com o futuro, seria mentira não o admitir. Não são necessariamente os principais protagonistas e as ideias que defendem que me deixam receoso. Mas alguns elementos dos respectivos grupos políticos que pensam que o facto de terem sido eleitos isso é um salvo conduto para cometer qualquer atrocidade. Só vejo disparates de gente impreparada e imprevisível de parte a parte. Isso assusta-me realmente.
Qualquer que seja o vencedor a política económica será neoliberal. Podem mudar os eixos estratégicos e as elites beneficiadas, mas será sempre um modelo baseado na dependência política e económica externa e no emprego público. Talvez aí estejam alguns dos principais desafios do país. Mas que com a elite empresarial restrita e, sobretudo, com a dificuldade em implementar reformas que alteram os benefícios da elite política, tudo continuará praticamente na mesma.
Só não vê quem não quer, mas as emendas parlamentares, a lei eleitoral e o pacto federativo o país tem dificuldade em se reestruturar. Dizem que o problema é a Constituição, mas apontam apenas questões ligadas ao papel do estado e dos privados. Como pode um país financiar carreiras políticas através dos chamados vereadores, os nossos eleitos para a assembleia municipal? Como podem os membros do poder executivo ter acesso a verbas (as emendas parlamentares) para financiarem o que decidirem? São muitas questões numa votação que ele caras e ideologias, mas ficará tudo na mesma.