Nesta passagem para o Outono a minha mãe vinha a fazer um esforço repetido de memória para me lembrar (ou para se lembrar) que o meu pai faria 93 anos se fosse vivo. Partiu em 1977, com 44 anos, tinha eu completado 12 anos. Para mim a sua ausência sempre foi um desafio à superação e à própria sobrevivência mental. Na prática praticamente nunca convivi com o meu pai, "deu o salto" para França quando eu nasci. Regressava a Portugal nas breves férias de Agosto.
O que mais me inquieta agora é o envelhecimento da minha mãe. A vida tem-me afastado fisicamente, procurando que não seja um entrave ao apoio, mesmo que pela não presença não seja a mesma coisa. A minha mãe está com 88 anos e mantém-se sã e activa. Passa os dias no Centro de Dia da aldeia. Costumo dizer "se ela reclama está óptima". Em termos de saúde também está bem. Em Agosto acompanhei-a a uma consulta de rotina e estava tudo dentro da normalidade. Sempre com exames e análises de rotina.
Apesar dos dados objectivos dos valores laboratoriais e da ajuda diária no próprio Centro de Dia, assim como a sua dedicação a algum tipo de artesanato, a distância deixa-me mais atento e/ou sensível às transformações. Nunca teve problemas de memória ou de se baralhar com nada, noto que gradualmente preciso de a relembrar de uma ou outra coisa e tudo normaliza. São 88 anos de um percurso de vida intenso e sofrido. Sempre com auto-estima elevada, apesar da viuvez e outros percalços na vida, nomeadamente de saúde. Na Páscoa de 2007, estava eu pronto para viajar para a terra, foi hospitalizada com um problema de saúde grave. Após um longo e doloroso diagnóstico foi identicada com mielite transversal, uma doença rara que afecta 13 pessoas em 10 milhões e somente 1/3 recupera totalmente. A vontade em voltar cuidar das galinhas ajudou na recuperação. Foi operada à tiroide, aos ovários e tendinite. Felizmente sempre superou tudo.
Nem sempre concordamos e nem sempre acho que seja justa, mas isso não muda o afecto e a preocupação. À medida que a nossa idade avança os nossos mais próximos partem. Cedo perdi o meu pai, como referi. Não conheci o meu paterno, a minha avó faleceu tinha 3/4 anos. Fui criado pelos meus avós maternos, que no ciclo da vida também partiram. Assim como as minhas tias-avós e outros parentes. Quando estou em Portugal procuro estar com ela todos os dias no fim da tarde, até ao Jornal da Noite. Depois vou para a outra casa ou ter com amigos. Mas esses momentos são sempre de proximidade. O facto da minha mãe não ter acompanhado o crescimento dos filhos foi marcante para ela. Permaneceu em França algum tempo mais após ficar viúva. Depois criou pelo menos um neto. Este é um momento especial, está para nascer o primeiro bisneto, creio que já não contava.