Entre continentes

O Verão passa rasteiro

Leio notícias sobre Portugal e a Europa, as temperaturas sobem, existem motivos para alarme, existem também alguns exageros e desconserto em entidades. Os críticos do clima rejeitam tudo e aproveitam-se. Os mais de 40 graus sabemos que são normais no Alentejo, em Sevilha e na Europa do Sul. Ainda assim tem quem se babe a difundir a ideia de que sabe tudo. São cada vez mais as críticas À ciência, sobretudo por parte de quem apenas se acha, mas que quando convém recorre a argumentos científicos. Paralelamente, é o argumento do costume, segundo a qual a antiga quarta classe conferia mais conhecimento que o Secundário. Tem piada quando estamos a falar de modalidades de aprendizagem diferentes, mas queremos acreditar serem comparáveis. Isto não significa que o actual sistema de ensino esteja a funcionar bem. É o caos do costume, sem método, com medo de ofender a matriz cristã e com a crença de que a escola educa, ignorando a própria família.

Muitas coisas contextualizam o aumento de temperatura, os fenómenos climáticos gerais a absoluta certeza de que todo mundo agora morre de Covid-19 ou, no inverso, de que todo mundo morre devido à onda de calor, quando afinal foi dos excessos cometidos para as pessoas se refrescarem. É o morrer da cura e não da doença, mas aí o posicionamento aproxima-se do negacionismo. É um negacionismo de távola redonda, de ouvir falar no café ou assim disse a  televisão. A comunicação parece um doidivanas, não sabe o que destacar. Alguém llhe sopra aos ouvidos e a partir daí repete fórmulas de agências internacionais. Como se tivesse heróis entre quem gosta apenas de avajavardar ou quem arrota antes do tempo. Os temas, as fontes, as narrativas e os desfechos são impressionantes. Até parece que a infidelidade de alguém desconhecido provoca orgasmos nas nossas certezas, quando o tema é totalmente irrelevante. Como é irrelevante o jogo da bola feito nos debates e comentários da comunicação social.

Dizem que é o que temos, mas nós preferirmos morrer conformados a ter de agir. Não somos apenas o segundo país com os habitantes a assumirem-se tristes. Somos uma país de conformados e de adeptos de sofá e café da esquina. Gostei tanto de participar na Marcha por Timor. Tal como adorei participar nas manifestações contra a Troika. Aí não estavam apenas os militantes com sentido político, estavam famílias completas, que expunham as suas preocupações indo para a rua. Foram tempo de esperança que na mesma hora, no caso das manifestações contra a troika o governo matou no próprio instante, ignorando o sentimento de impotência e isolamento das famílias.

A questão climática vai no mesmo sentido. Tem sido debatida fora das universidades e dos grupos ambientalistas, mas ainda é visto com um discurso sobre o Apocalipse que faz vénias às narrativas e à diversidade de opinião. Assim dificilmente levamos os problemas a sério. Tem tanta gente com certezas. A ciência não as tem. Assim andamos a lançar manchetes e a ver quem dá mais, o que raramente nos leva a definir prioridades e a monitorizar as políticas e o rasto do dinheiro. Não está fácil acreditar que a saída está na ciência. Uma das saídas, convém reforçar. Lembrando que a ciência é apenas uma entre muitas formas de conhecimento.

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