Entre continentes

O pior problema do Brasil é a insegurança 

Os portugueses adoram criticar o que é diferente e se for pobre mais ainda. Já nem vou para a questão da cor da pele, género, opção sexual, religiosa ou outra. É nesse contexto que as críticas à imigração brasileira acaba ganhando maior enquadramento. O mesmo acontece com as representações sobre o povo brasileiro de forma geral. Dada a dimensão do país e a enorme diversidade faz sentido afirma que não existe um Brasil, mas vários Brasis. Em 1933, Gilberto Freyre já reconhecia o facto, vários outros autores dão continuidade à ideia. Até dentro dos Estados não existem territórios homogéneos, mas uma grande diversidade de paisagens, de culturas, aspectos demográficos, tradições, actividades económicas e por aí adiante. 

As representações negativas, como a pouca vontade de trabalhar e práticas relacionadas à violência, corrupção, festa e barulho, entre muitas outras, seguem a mesma tendência. É como em todo lugar, as pessoas querem ser felizes na sua vida. Tenho conhecido muita gente boa, reconheço a existência de muitos oportunistas. Ao contrário do que pensamos, que os brasileiros são "folgados" e "abusados" (abusam da corte, são Chicos Espertos) é uma generalização sem sentido. Os portugueses que muito defendem os valores de antigamente ignoram que tem muita gente com práticas e perfil dito conservador no sentido social, austero se preferirem. O Brasil tradicional assemelha-se ao português tradicional. O problema do Brasil não é nenhum crise de valores, é uma crise de desigualdades e oportunidades. E quando assim a violência e insegurança pública assumem proporções gigantes. Falam em corrupção, mas o maior problema do país é a insegurança pública, a violência. Parte tem origem na polarização política, outra resulta da tradição dos crimes de honra, do controle do poder pelas famílias, como herança de um certo cangaço. Razões não faltam.

Por outro lado, um país desta dimensão precisa centralizar o controle dos meios de violência, como dirá Giddens. Existe muita coisa a fazer. Seria necessário uma reforma político-administrativa e eleitoral, assin como um reforcar geopolítico. Actualmente o país dá mais atenção ao BRICS que o Mercosul. A dimensão do país não é suficiente, nem para a dinâmica interestadual. Muita coisa tem mudado, mas o próprio estado precisa de se adaptar aos novos tempos. A própria insegurança nem sempre é face à violência, pode ser sócio-jurídica, dada a capacidade de politizar os acontecimentos. 

A imagem de capa é meramente ilustrativa. 

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