Entre continentes

O Nordeste brasileiro longe dos holofotes

 Muitos portugueses associam o Brasil e os brasileiros às enormes favelas existentes nas principais cidades. Alguns até salivam. Mas o Brasil é mais do que isso. Para além da própria dimensão continental. Ao lado do Brasil o nosso país é minúsculo, é do tamanho do estado de Pernambuco. Claro que o Brasil tem muitos problemas e alguns vão continuar a arrastar-se, sobretudo pelo facto de quem benefícia não estar disposto a reformar e modernizar. Esse problema e benefícios atravessam qualquer partido, não adianta acusar X ou Y.

No recorte do Nordeste as representações negativas são históricas e não envolvem apenas os portugueses. Os sudestinos e mesmo os habitantes do Centro-Oeste sempre alimentaram uma imagem negativa dos nordestinos. Esse processo deve-se ao desinvestimento crónico na região e às secas severas que afectam o chamado semiárido, que constitui grande parte do Nordeste. Actualmente o mapa do semiárido inclui igualmente municípios de Minas Gerais e do Espírito Santo, que não integram o Nordeste. 

Historicamente, os chamados retirantes das secas fugiam para o litoral, mas uma parte era colocada na exploração da borracha na Amazônia e outra parte, desde o Brasil império, seguia para o eixo São Paulo- Rio de Janeiro. Esse movimento acompanhava as secas, podendo haver o regresso às suas cidades com o normalizar climático. Mas muitos nordestinos migram igualmente para as regiões Sul e Centro-Oeste. Aparecem na hotelaria, na restauração, na agricultura e na construção civil. Muitos aparecem na construção de Brasília. 

Além das dinâmicas de poder na região, associadas à chamada "indústria da seca", relativa ao poder das elites regionais e como conseguem retirar benefício de financiamento público e usar os proveitos no controle social e político, a resposta à seca é também interpretada como forma de garantir grandes quantidades de mão-de-obra barata em outras regiões. A tese pode ter reminiscência marxista, mas quando os dados são muitos deveremos discutir o tema.

Em resultado de tudo isto, persistem ainda hoje representações negativas sobre o Nordeste, para não falar num forte estigma de atraso, acusações de não querer trabalhar e viver do Bolsa Família, entre outras. Esta semana analisamos os dados do IBGE (o INE cá do sítio) e podemos constatar o tremendo atraso no enfrentar do analfabetismo, que era o nosso recorte. A região apresenta taxas de analfabetismo superiores ao dobro da média do país, havendo ainda diferenças acentuadas em termos de género e raça. 

Com a persistência dessas taxas a região leva décadas a inverter a situação de subdesenvolvimento. Os problemas na gestão pública e a necessidade de grandes investimentos não ajudam. O ensino superior é de grande qualidade, mas os maiores problemas continuam a ser no ensino fundamental e no ensino médio, havendo ainda discrepâncias entre a oferta estadual, municipal e outras.

Para muitos portugueses, o Nordeste destaca-se pelas belas praias, pela insegurança e pela corrupção. Mas o próprio Nordeste é um mundo quando comparado com Portugal. É certo que é do tamanho de Pernambuco, mas a região integra 9 Estados, com 1.558.291km2 e cerca de 55 milhões de habitantes. Dentro dos Estados e entre Estados as diferenças podem ser muitas. Algumas áreas do interior lembram-me Portugal, as pessoas também. Dado o processo de colonização ficaram muitas raízes. Em passeio, em visitas de campo ou estudos de impacto ambiental já andei um pouco por essa vastidão. Já abri muita cancela e passei muito mata-burro. É sempre com gosto que o faço, com a curiosidade de quem sente que não conhece nada face à dimensão do território e da história.

0