Entre continentes

O homem não chora?

É difícil encontrar uma religião (talvez deva dizer Igrejas) que não seja machista, podemos dissertar sobre o tema, mas a história depois impacta sobre as representações do que é ser mais ou menos homem e do papel secundário em que as Igrejas modernas colocaram a mulher. Veja-se o caso de Maria Madalena. Para uns esposa de Jesus, para outra prostituta. Acredito que o tema gere discordância, não é o meu objectivo. Apenas pretendo deixar breves indicações de como o machismo estrutural está enraizado na sociedade portuguesa (e não só).

No caso dos ditados populares estão cheios de expressões que exaltam o lugar do homem, a tal dominação masculina de Pierre Bourdieu. Entre esses ditados destaco três que sempre ouvi e não fui o único.

  • "Homem chorão, ó corno, ou cabrão". A ideia de que o homem não pode vacilar, é macho e macho não é dado a sentimentos.
  • "Um homem não chora, nem que veja as tripas do outro de fora". Provavelmente este ditado está ligado à vida militar e em particular à guerra colonial. Poderá ter sido para motivar os soldados, mas aproxima-se do primeiro exemplo, da ideia de uma masculinidade que dignifica o homem.
  • "Homem que é homem não chora", é a versão mais simples e tradicional de tudo isso.

Deixo de lado ditados como "Entre homem e mulher ninguém meta a colher", até por não destacar necessariamente o homem. Mas tem pelo menos outro ditado que exagera a posição do homem. Refiro-me ao ditado "Em casa onde a mulher manda, o galo não canta". Num contexto de violência doméstica, não apenas contra a mulher, precisamos revisitar os ditados populares e o papel da família no enfrentar do problema. As famílias sempre educaram os homens no sentido de que "o homem não se deve rebaixar à mulher", que depois tem repercussão em aceitar a possibilidade desta receber um salário maior e ser ela que organiza a vida doméstica. Tem sido dito que as penas de violência de género devem ser agravadas, mas o problema e a solução devem merecer uma leitura e uma prática mais abrangentes.

A imagem foi retirada em Portalegre, não na cidade portuguesa, mas na cidade do Alto Oeste, no Rio Grande do Norte. 

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