Em Portugal temos ideia da importância forte do futebol e do samba na construção da identidade brasileira. Como já salientei algumas vezes, o antropólogo Roberto DaMatta analisa muito bem essas representações, incluindo diversos estereótipos. No geral são elementos importantes, mas a diversidade regional e de época é muito grande.
Quando passados a morar no Brasil, neste caso passados 10 anos e meio, temos muitas reticências quanto ao destaque nacional desses dois ícones da identidade brasileira. No caso da música verificamos que o país é marcado em diversos períodos por diversas tendências. O samba não tem uma linha só, tem o mais clássico, o samba canção, o chorinho, o pagode e muito mais. Por sua vez, é sobretudo no Rio de Janeiro, mas também em São Paulo e na Bahia que mais se destaca. Mesmo na música tradicional outros Estados têm outras preferências. Por exemplo, não tem São João no Nordeste sem forró e não tem Carnaval em Recife e Olinda sem frevo.
Não falo do actual funk e do sertanejo que não é do sertão. Nem da música dita brega de décadas anteriores, nem de outras variações regionais. Sem esquecer a chamada MPB, música popular brasileira, a bossa nova e por aí adiante. Muitos artistas brasileiros têm passado por Portugal, integrando todas estas tendências. No caso do frevo, a que se refere a imagem de capa, da visita ao Museu do Frevo, em Recife, em 2015, é bem conhecida a música de Alceu Valença.
Quanto ao futebol, outrora pensava que era vivido com maior presença diária que em Portugal. Pode ser uma questão regional, mas receio que os portugueses sejam mais interessados no tema. O português típico fala basicamente sobre futebol, sobre mulheres e sobre o estado do tempo. A maioria não conhece outro assunto. Em particular no Nordeste não vi tanto destaque ao tema. Em Campina Grande e no próprio interior da Paraíba sei que os adeptos são mais ferrenhos, em Recife, estado de Pernambuco, também se nota maior interesse, mas nada como em Portugal. Pode acontecer nos Estados das principais equipes do campeonato brasileiro, mas se assim fosse teriam adeptos em maior destaque pelo país.
Isto não quer dizer que a chamada "torcida" não seja activa. Nesse aspecto até acho que tem tendência para o conflito, apenas não sinto que a bola invada tanto a esfera das relações quotidianas. Posso estar enganado ou essa visibilidade, como argumento, ganhar expressão em outros Estados. O que existe e merece destaque, foi aí que interveio Scolari, uma deusificação da seleção brasileira, talvez até algum exagero institucional. Nos dias em que joga o Brasil os trabalhadores podem ser dispensados cerca de 2 horas antes e depois. Não existe uma regra escrita, mas sobretudo os organismos públicos param. Em Portugal podem acompanhar o jogo na televisão da empresa ou do órgão público, mas os trabalhadores não têm dispensa.