Entre continentes

Meu querido mês de Agosto - Sud Express

Era para usar como subtítulo "O regresso dos emigrantes", mas para evitar atrair determinado público que pode entender imigrantes onde não está escrito, optei por fazer alusão ao Sud Express. Apesar da escolha este comboio entrava por Vilar Formoso. Transportava muitos emigrantes, mas não era a única porta de entrada. Além de que muitos passaram a viajar de carro e autocarro. 

A aldeia dista apenas 2kms da sede de concelho. Uma das propriedades rurais da família ficava do outro lado, a cerca de 700 metros da linha da Beira Alta, numa pequena reta que permite ver os comboios no seu esplendor. Tenho algumas imagens do comboio a passar no local, mas para facilitar uso uma da linha com alguns anos. 

Além do Sud Express, que passava no sentido Lisboa por volta das 7horas da manhã e depois por volta das 19h, outros comboios especiais chegavam todos os dias. Destacavam-se pelas carruagens azuis, provavelmente da espanhola Renfe. Para quem esperava os seus qualquer comboio era uma emoção. Subitamente duas pessoas, muito esperadas, juntavam-se à família. Para um jovem era tudo muito estranho, pois quem produziu o seu sangue surgiu com alguém completamente estranho.

Fui criado pelos meus avós maternos. O meu pai partiu quando eu nasci. Deu o salto. Nos meus 5 anos a minha mãe foi autorizada a juntar-se a ele. Havia planos futuros de eu e o meu irmão também seguirmos para França. Quis o destino levar o meu pai 3 dias após eu completar 12 anos. Partiu de leucemia, na época ainda sem solução. 

Nesses breves anos, por ausência quotidiana dos meus pais, a sua vida era tanto alegria quanto estranheza. O mesmo sucederia com outras crianças. Na aldeia praticamente todas tinham familiares em França, na Alemanha ou outro país. O mês de Agosto era o mês dos "ça va", como se dizia com pecado. Enchiam as ruas, as feiras, as missas e todos os espaços durante o ano vazios. Por vezes vinham também alguns franceses, tanto crianças quanto adultos. As festas do fim de Julho até ao 15 de Agosto tinham o brilho da sua presença. A despedida às portas do mesmo Sud Express eram comovente, ainda hoje é na memória.

Durante os 11 meses seguintes os laços mantinham-se apenas por carta. O telefone público da aldeia ficava numa mercearia, era usado em casos de emergência e na premissa "ligou a sua filha, volta a ligar às tantas horas". Eram as cartas constantes, muitas que cedo aprendi a escrever e que usavam os mesmos dizeres na primeira exposição:

"Minha mãe, espero que se encontrem bem, nós cá vamos andando".

P. S. Como uso apenas a memória e os dedos peço desculpa se der eventuais erros. Nem sempre tenho disponibilidade para reler e normalmente escrevo no bloco de notas do telefone e partilho aqui.

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