Entre continentes

Meu querido mês de Agosto - a dureza do campo

Não adianta romantizar a vida de outrora, era extrema no esforço, não era de fartura e também tinha conflitos. Em termos de segurança pública não tinha tantos episódios, mas basta escutar algumas memórias para se perceber que nem tudo eram rosas. Não eram só os bandidos que apareciam no meio dos caminhos, nas aldeias repetiam-se conflitos, muitos de morte, por causa da partilha da água e por causa das (de)marcações de propriedades. Nas famílias também não era tudo paz e amor.

Actualmente o clima está em mudança e com um aumento global de temperatura, na época as estações eram bem marcadas. Os rigores do Inverno e os extremos do Verão eram marcantes. O povo ainda diz "três meses de Inverno e 3 meses de Inferno". Queixo-me do frio, mas o Inverno era penoso. Para se apanhar a azeitona subiamos nas oliveiras com pedras (godos) quentes. O Verão trazia o vento Suão, o sopro do vento quase em chamas vindo do Norte de África. Felizmente havia mais vegetação e poucos incêndios. Mas o trabalho no campo era duro.

A colheita do centeio e cevada era feita de dias intensos, de corpo ferido ou cheio de coceira. As ditas praganas colavam-se na roupa e lá ficavam. Durante uma semana vinha uma máquina de uma aldeia vizinha para malhar a colheita nas eiras. Pequenas quantidades eram malhadas manualmente. Na terra chamam "traiela" ao malho. Malhei muito centeio e algum milho com ele. Até final da década de 1970 era praticamente tudo feito manualmente. No caso do milho surgiram várias malhadeiras na aldeia. Chegava o tractor numa eira e malhava o milho de toda a gesto e todos ajudavam. Cheguei muitos sacos de espigas na abertura da malhadeira. Essas actividades traziam felicidade, eram as colheitas. A (des)casca do milho e o malhar juntavam sempre mais alguém, não apenas do grupo de solidariedades primárias, mas da vizinhança. Outras actividades era muito duras. Sulfatar (pulverizar) as videiras era uma dessas actividades. Depois surgiram "atomizadores", mas durante anos era com as pesadas "máquinas de curar". O calor e o possível vento agravavam o instante. Além dos calos nas mãos, as correias deixavam marcas nos ombros. As costas e a coluna não simpatizavam com tanto peso.

Todo trabalho na mata era duro, sobretudo quando havia necessidade de carregar os pinheiros para um local onde pudesse ir um tractor agrícola. Antes disso era com carros de bois ou mesmo na carroça com a burra. Eram 2, 3 ou 4 dias bastante intensos e sem tempo para a sesta. Depois lá em casa era tudo cortado e rachado manualmente. 

Na vinha havia o hábito de se fazer a chamada redra. Em pleno calor havia a ideia de que cortar a erva e remexer o pó ajudava a mudar a produção. Actualmente vários produtores seguem tendências totalmente contrárias. Esse momento na vinha, já com alguns bagos com pintor, a ficar maduros, era teoricamente uma actividade leve, mas o clima tornava-a dura. Pior que isso só mesmo fazer molhos de vides após a poda em Janeiro.

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