Entre continentes

Meu querido mês de Agosto 

Estamos quase a chegar ao mês de Agosto, que tantas saudades e narrativas acaba por gerar. Na terra não era apenas o mês da festa de Verão e dos imigrantes, sempre foi tempo para arrecadar o milho, o feijão, arrancar as batatas e apanhar a fruta. Sem esquecer de trazer a lenha da mata para o Inverno rigoroso.

Os últimos dias de Julho traziam de volta os nossos imigrantes. Assim convivi rapidamente com o meu pai, que deu o salto para França quando eu nasci e que viria a falecer no início do ano de 1977 com leucemia. A minha mãe manteve as visitas de Agosto nos anos em que permaneceu só em Troyes, mas obviamente que a perda do meu pai trouxe grandes transformações. No mesmo ano de 1977 lembro dos meus avós paternos, que me criaram, decidirem que iríamos à festa do município, pois isolados não iríamos suprir a nossa perda. 

Os bailes da aldeia eram diferentes das festas municipais. Geralmente eram vedadas com tábuas, com uma bilheteira também em madeira. No interior o chamado "dancing" era também vedado. Os rapazes pagava para dançar. Era a única forma de chegarem à fala com as raparigas. Por sua vez, as mães ficavam a vigiar em redor. Além da música, bastante interessante para a época, eu adorava as lâmpadas coloridas dos recintos. 

Agosto era um dos meses das ditas férias grandes. Nunca fui efectivamente de férias. Passava o mês na mata, na vinha e nos lameiros. Por volta das 5 horas da manhã já íamos para as fazendas regar milho ou fazer outra actividade. Por vezes levávamos a burra, a carroça sempre ajudava a trazer algumas coisas. O regresso precisava ser antecipado. Moscas, moscardos e vespas atacavam o animal, já bastante afectado pelo calor. Em outros momentos o carro de mão era suficiente, ou então o motor de rega com roda com um carro de mão. 

O calor sempre fui muito, apesar da piqueta (lanche matinal) a partir das 10h às 10:30 horas era o momento de regressar. À tarde era mais difícil regar, o solo estava a escaldar, sumia a água toda. E não dava para tirar a cana ao milho. Sem esquecer que a folha áspera cortava o corpo. Ficávamos pelo quintal ou íamos regar próximo de casa. Tantas vezes deitando água de cabaço. Havendo água voltávamos aos lameiros, mas nunca antes das 17horas. O regresso a casa era nocturno. Durante o dia a sesta permitia recuperar forças. 

Alguns dias eram passados na mata a cortar pinheiros ou então a limpar as chamadas ramadas quando alguém vendia pinheiros aos madeireiros. Colocada a lenha no quintal era necessário serrar e rachar tudo. Durante muito tempo era ainda tudo com serrote manual e machado. Muitas tardes eram passadas aí a tratar da lenha. Também fazia o mesmo com as minhas tias-avós para ganhar algum dinheiro. Nunca deixei de visitar semanalmente a cidade de Viseu à boleia, mas assim eram passadas as férias grandes. Depois as espigas ficavam secas. Até dia 16 de Setembro, dia de Santa Eufémia, tudo precisava ser recolhido. Em breve chegavam as primeiras chuvas.

Tínhamos muitas figueiras, pereiras, ameixas de outono e muitos pêssegos. Antes da vindima era tempo de apanhar essa fruta. Muitos figos eram para alimentar o porco. Secávamos muitas gamelas deles. As tais férias grandes não tinham histórias de praia. Durante esses meses geralmente só os amigos próximos mantinham contacto. O contacto entre aldeias não era fácil e as famílias controlavam muito os movimentos. 

A imagem de capa é de amoras silvestres, das silvas. Que além do colorido são muito saborosas e muitas vezes permitiam enganar a foto. Neste caso a imagem é de 2019 lá pela minha Beira Alta. 

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