Entre continentes

Estereótipos diz muito de quem os usa

Esta manhã um leitor do Diário de Viseu usava o habitual comentário de raízes xenófobas para comentar o facto de um duo brasileiro feminino de forró actuar na Feira de São Mateus, afirmando e passo a citar: é música de favela. Essas frases feitas e colocadas na ponta da língua ou dos dedos mostram, designadamente, que a pessoa está a rotular uma coisa que não é e nada entende da origem e tipologias de forró.

O chamado sertanejo universitário é o único efectivamente urbano e que pode ter influência em áreas mais precárias de alguns centros urbanos. Pese o facto de se chamar universitário o nome não condiz necessariamente, mas também pouco ou nada tem a ver com música sertaneja, menos ainda com forró. É associado aos nordestinos do interior, o sertão afectado pelas secas, que por gerações têm procurado ganhar a vida em outras regiões do país. Mas na prática é um mero produto comercial que interessa a promotoras e editoras e pouco ou nada tem a ver com a raiz sertaneja e nordestina.

Quanto ao forró, é uma tradição do Nordeste brasileiro, rural e profundo, cruzando algumas influências portugueses como influências da música popular dos EUA e, obviamente influências africanas e indígenas que sempre se cruzaram na região. Curiosamente, o nome derivará de forrobodó, palavra conhecida em Portugal. Outra possível explicação do nome liga-se à influência dos EUA na região e nesse caso o nome poderá ter vindo de "for all". É bom colocar que os norte americanos (ditos estadunidense aqui no Brasil) tiveram presença no Brasil durante a II Guerra Mundial, designadamente na cidade de Natal, influenciando alguns aspectos da cultura.

Vamos assumir que, oo geral surgiu de festas populares, ganhando destaque a partir do grande Luiz Gonzaga, sensivelmente a partir da década de 1940. É música do povo do campo, nada tem a ver com favelas e outros disparates anti-brasileiros. Já aqui falei de alguns subgéneros, destacando-se o xote, o baião e o xaxado. E dentro do forró tem o genuíno pé de serra e tem outras nomenclaturas. Curioso ou não, é o facto de algumas músicas pretensamente portuguesas e influenciadas pelo folclore nacional são "inspiradas" no forró. Algumas composições de Quim Barreiros lembram outras origens para quem conhece estas bandas. Mas não é o único.

Além do citado Luiz Gonzaga, conhecido por Rei do Baião, outras figuras merecem destaque. Dominguinhos é conhecido como o mais famoso sanfoneiro, por sua vez Jackson do Pandeiro, que tem uma estátua junto ao Açude velho em Campina Grande é o Rei do Ritmo. Da geração mais antiga e no activo gosto muito do romantismo de Flávio José. Nas últimas décadas surgiram variações electrónicas do forró bastante interessantes, não vou destacar nenhum para não errar. Os trios de forró pé de serra usam como instrumentos a sanfona (acordeão mais pequeno), o tambor e o triângulo (os ferrinhos). Outras variações de forró usam mais instrumentos. 

A imagem da capa não é das melhores, mas foi fotografada do outro lado da estrada a montante do Açude Velho em Campina Grande, no principal canal de acesso ao açude. Mostra o quanto o forró não é apenas música, mas igualmente dança, ritmo e cor. A imagem no texto é a de Jackson do Pandeiro que tinha referido.

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