Entre continentes

Dia de Portugal

Celebra-se o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Talvez não falte pompa nem circunstância, faltará memória e esperança. Se tem coisa que eu detesto nos portugueses tanto o idolatrar do passado quanto o pessimismo presente. Repetimos a exclamação "só neste país". Adoramos ser mártires do próprio discurso. Quando na verdade temos a nossa identidade construída a partir de vários marcadores.
A história importante, mas o presente é que nos conduz à vitória. E aí precisamos de menos drama, mas mais sonho realista. Vivemos o choque (finalmente) da abertura ao exterior, mas temos dificuldade em olhar para dentro. E somos sectaristas no olhar. A controvérsia dos imigrantes deixa isso bem claro. Somos xenófobos quando a mão de obra é brasileira. Somos amigos de porta aberta quando os empregos altamente qualificados vão para italianos, alemães, franceses e por aí adiante. Ah os brasileiros até ganham pouco e têm má fama. Pode até ser. Mas quem ocupa, por exemplo, os lugares de investigador nas universidades portuguesas. Enfim, muito haveria a dizer. Não tenho inveja de ninguém e seguir também o mesmo caminho.
Mas e o Camões, que é feito dele? Provavelmente não tem grande destaque. Estará a celebrar com as comunidades portuguesas. Tenho 10 anos de Brasil, na verdade 10 e meio, mas nunca tive qualquer ligação com a comunidade portuguesa. Em Natal tinha uma pastelaria (aqui muitas vezes chamadas de padarias ou confeitarias) que frequentei durante muito tempo. Entretanto mudou de donos e depois veio a pandemia. Havia também um excelente restante, creio que um dos proprietários era comum. Apesar disso não tenho qualquer convívio com portugueses. 
A dimensão do Brasil pode tornar tudo mais difícil. Depois também não é o país dos 50 euros de viagem. Bem pelo contrário, são tendencialmente de 1000 para cima. Por vezes menos, depende da concorrência. Natal tem voo direto para Lisboa praticamente todos os dias, assim como Recife e Fortaleza. O problema não são as cerca de 7horas de viagem. É o custo que referi. Fica difícil lidar com a ansiedade e como a saudade. Adoro o que faço aqui, mas o pedido de regresso dos governantes é uma utopia. Adoro o meu país, mas como diz um amigo necessito fazer pela vida. Ou primeiro vêm as obrigações e depois as devoções. 

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