Poderia dizer que é um vício de aldeia e até dizer que é mais praticado por mulheres, mas nada disso corresponde à verdade. O falar da vida alheia, coscuvilhice ou bilhardice como se diz na terra, é uma prática universal. Tem uma dinâmica própria nas aldeias. Na verdade tinha, pois as aldeias agora estão vazias. Era comum a ida à mercearia para ficar a "saber das novidades". Porém, no ambiente de bairro, nos condomínios e nas empresas acontece exactamente o mesmo.
Faço um esforço enorme para que a minha mãe e outras idosas da família não sejam metediças. Não é nada fácil. Sobre ser mais associado a mulheres é uma falsa associação. É certo que faço parte do grupo de homens que não só não dão importância aos relatos da vida alheia, mas já me cruzei com vários homens ao longo da vida que parecem o Correio da Manhã do local. Pior de tudo, alguns adicionam narrativas à versão original. Trabalhei muitos anos como vigilante num dos edifícios do aeroporto de Lisboa e tinha um colega que era um perigo. Dizia para ele: ó Sicrano, da parte que disseste o que é realmente verdade? Lembrando também que nos ambientes populares os homens frequentavam as tabernas/tascas, esse era um espaço de circulação de informação. Muito provavelmente, a coscuvilhice matinal das mulheres era alimentada pelas informações nocturnas dos homens.
Pior de tudo é que as pessoas negam sempre. Tive ao longo da vida alguns boatos sobre mim. Sempre achei que parte deles partiam da própria família, o que me irritava profundamente. A melhor coisa é ignorar, mas não é fácil. Quando comecei a namorar com a minha ex-mulher, lá para 1988-1989, inventaram muita história feia sobre ela. Como não era da terra, era da Madeira, as invenções foram bem picantes. Que tinha filhos, que isto ou aquilo, nem vale a pena lembrar. Infelizmente, nas últimas décadas a minha sobrinha também passou por algo semelhante. Simplesmente horrível e com início no contexto familiar. Na época ela trabalhava em Viseu num bar/discoteca bem conhecido. A má língua inventou coisas muito feias. Nessas alturas é impossível ficar calado.
Uma outra época arranjaram-me várias namoradas da mesma família. Uma descendente da aldeia morava não sei se em Lisboa e arredores, contaram que teria um caso pelo menos com uma das filhas. Como eu tinha saído da aldeia fazia alguns anos nem sequer conhecia a pessoa em causa. O grave nisso tudo é que podem nos prejudicar e afectar a nossa paz.
A imagem da capa é meramente ilustrativa. Trata-se da vista lateral das ruínas do Convento do Carmo. A fotografia é de 2015. Pode associar a coscuvilhice à cultura portuguesa, mas está por todo lado.