Numa das situações mais inusitadas e inquietantes acabei por ser apanhado pela tempestade Kristin, no dia 28 de Fevereiro. Na verdade, pelos efeitos da mesma e pela demora na reacção. Tinha programada a participação em duas palestras na região e viajei essa manhã para Leiria a partir de Lisboa. A falta de informação em Sete Rios na hora de apanhar o autocarro era total. Somente com o aproximar da Marinha Grande foi possível conhecer a destruição deixada.
Quando cheguei para me instalar no hotel a reserva tinha sido cancelada, pois não havia, energia, água e Internet. Rapidamente percebi que também não havia comida, foi um sarinho. Consegui ficar num hotel vizinho, que tinha pequeno almoço. No centro um estabelecimento familiar vendia sandes, foi o que me valeu. Tinha combinado com um amigo no hotel, mas como fui obrigado a mudar não consegui falar com ele. A rodoviária ficou com o telhado destruído, pelo que não vendia bilhetes. Os autocarros continuam a circular, a resposta era: os motoristas não podem vender bilhetes, só pela Internet e na bilheteira. Exactamente o que não estava a funcionar. Fiquei duas noites, no final da segunda consegui aceder à Internet através do número brasileiro, pelo que comprei o bilhete. Horas depois foi restabelecida a energia no centro de Leiria. Foram 3 dias bastante difíceis, estava a ver que ficava na rua e sem comida. Na minha condição de diabético a questão da comida é crucial. Não me canso de agradecer aos responsáveis pelo hotel D. Dinis, que me receberam naquele contexto, mesmo eu não tendo dinheiro físico para pagar.
Deixamos essa minha aventura climática para trás e vamos olhar o que foi feito. As câmaras fizeram o que puderam, sobretudo Leiria. A política partidária até aí gerou críticas. Naqueles 3 dias não apareceu ninguém no centro para apoiar as pessoas, excepto uma viatura da polícia, a própria rodoviária não quis saber dos passageiros. Quando chegou a energia disponibilizou uma sala na ala parela à garagem.
Vi muita destruição e dor. Muita gente a subir aos telhados, dava aflição e não era para menos, pois a maioria das 14 vítimas foram quedas dos telhados. Passados estes meses ainda não foram resolvidos os problemas de energia e de comunicações de muitas famílias. A transparência nos apoios é importante, mas não tivemos como país de discutir a resposta à tempestade para daí tirar conclusões e mudar procedimentos. Havia informação da possível ocorrência da tempestade, mas os dispositivos de prevenção não estavam preparados. Os órgãos públicos não estavam preparados e vão continuar a não estar. Quando não se discute o problema este passa a não problema. O Sr presidente Seguro no seu relatório destacou as fragilidades da resposta, mas precisamos de mais. Quando se repetir o fenómeno tudo se vai repetir, sabendo nós que a tendência é de agravamento.
Depois da tempestade não veio a bonança