Entre continentes

De novo os incêndios devastam Portugal 

Relembrava ontem com a minha mãe o primeiro grande incêndio ocorrido entre o final do planalto beirão, as margens do rio Mondego e a encosta Norte da Serra da Estrela. Aconteceu em Agosto de 1976, tinha eu apenas 11 anos. Quis também o destino que essa fosse uma das últimas recordações do meu pai, basicamente a última, pois no dia a seguir regressaram a França. No final desse ano adoeceu, teve leucemia, viria a falecer no dia 4 de Fevereiro de 1977.

Recordo como se fosse hoje, um pequeno grupo, que agora chamam "populares", lutaram para o incêndio não atravessar o caminho. Oficialmente a mata tinha outro nome, para nós sempre foi Ribeira. A mata praticamente não sofreu nada, mas foi uma luta muito grande por parte de todos. Valeu a ajuda de um carro dos bombeiros. Na época a população tocava o sino da Igreja e íamos todos ajudar. Os incêndios não atingia as actuais proporções. Excepto aquele, a sua dimensão e risco levou à intervenção de um C-130 da Força Aérea. Não me lembro quanto tempo durou, mas aquela imagem do meu pai e de nós todos com ramos verdes de pinheiro a tentar apagar as chamas ficou gravada na minha memória. 

Tenho lido várias opiniões sobre os incêndios, o problema não é tão simples assim. Em 1976 haveria motivações políticas para o fogo posto, surgia também a queixa contra os madeireiros e outros. Não era o perfil de alcoólicos e dependentes de droga agora traçado. Se eram os madeireiros todos perderam. Deixou de haver pinheiros para cortar, desapareceu a resina, sumiram as minas de água. Sensivelmente de 3 a 3 anos a aldeia é ameaçada. Da última vez o meu sobrinho e um primo ficaram feridos.

Os meios de combate melhoraram. Falam na "indústria do fogo", que ganha milhões. Também falam em reflorestar e reordenar a floresta, nada disso é visível. A única coisa que se vê é a proliferação de eucaliptos. Ainda assim o maior problema é ausência de pessoas no campo. Grande parte das pequenas "fazendas" é agora mato. Outrora era tudo roçado para misturar com o estrume saído dos currais dos animais. Já andei por áreas ardidas nos anos anteriores com giestas mais altas que os meus 1,85m. Junta-se a isso a menor quantidade de água que brota do solo e o aumento da velocidade do vento e só aí o risco aumenta.

Não podemos ignorar possíveis problemas na gestão da própria Protecção Civil e dos fogos em particular. É um facto que o aparato é grande. Mas a linha de comando fica com quem não conhece necessariamente o terreno. Essa é uma das grandes críticas. Por outro lado, dada a intensidade dos actuais incêndios o combate realiza-se basicamente através de meios aéreos. Os bombeiros no terreno acompanham as populações em aflição. São vidas expostas a grande perigo, muitos têm perdido a vida. Chamam-lhe "soldados da paz", mas não são necessariamente integrados como "soldados". A maior continua como "voluntário". A imagem de capa é de um dos incêndios ocorridos nas proximidades da aldeia em Agosto de 2014.

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