Tenho manifestado as minhas reticências quanto à construção da barragem de Girabolhos. A minha osição que não é de agora. O erro vem dos avanços e recuos socialistas e da permeabilidade a influências que encaram o desenvolvimento local e regional como essencialmente suportado por obras hidráulicas. Claro que as barragens são necessárias, mas ter Girabolhos e Fagilde e argumentar que a barragem vai resolver o problema das cheias em Coimbra talvez não seja a melhor opção.
Vamos por partes. Não se tem falado em Fagilde, mas a estratégia do governo prevê a construção de Girabolhos e Fagilde. Com as mudanças políticas na região é incerta a integração dos municípios da região nas Águas do Douro e Paiva. Portugal adora os negócios da água, desde que o consumidor pague. No futuro a barragem de Fagilde seria a provedora de água para a região, já que a actual barragem não tem capacidade. Sempre me pergunto o motivo de nos entretantos a água vir Douro quando também poderia vir de Aguieira. Dizem-me na barragem de Aguieira actua outra empresa. Eu digo que a titularidade da água não deixou de ser pública.
A outra questão é a das cheias que sazonalmente afectam a cidade de Coimbra. O governo aproveitou as cheias de Fevereiro para decidir o que já tinha decidido, ou seja, construir a barragem de Girabolhos. Lembrando que o argumento foi do controle de cheias na cidade, mas os dados mostraram que as cheias de 2026 tiveram origem na Serra da Estrela, já que o degelo e as chuvas aumentaram o caudal do rio Ceira, um afluente do Mondego. O caricato é que o Ceira desagua a dezenas de quilómetros da área da futura barragem de Girabolhos. Desagua às portas de Coimbra. Mas o governo aproveitou a janela de oportunidade que tinha criado e vai avançar com Girabolhos.
Não se trata de ser contra a barragem, que certamente terá impactos positivos em algumas localidades e ecossistemas e negativos em outros. A minha teimosia refere-se à ausência de soluções alternativas ou a construção de uma barragem mais pequena. Não fica clara a função da barragem. Se Fagilde for construída a questão do abastecimento de água será por aí. A produção de energia eléctrica na futura barragem não se prevê ser significativa, sendo cada vez mais ponderada dados os períodos de seca extrema. O que armaneza água também acelera a evaporação. O uso da água para agricultura também não creio ter sido suficientemente estudado. Restam os usos recreativos e de lazer. Talvez seja o que mais atrai os municípios envolvidos.
Por último, tanto os usos agrícolas como recreativos poderiam ser mais amplos sem a construção da barragem, com a construção das ditas soluções baseadas na natureza, com a construção de infra-estruturas de porte médio e pequeno de modo a desviar a água dos rios sempre que necessário. Pequenos transvases e lagoas de retenção ao longo do trajecto dos rios poderiam contribuir para o surgimento de pequenos perímetros irrigados e áreas de lazer. Tudo isto sem a concentração numa obra de grande envergadura, cara e de eficácia duvidosa, sem esquecer a demora na construção.
Como disse, não sou contra as barragens, mas cada nova decisão deve ser ponderada. Além de gerarem metano necessitam do mínimo de água para não se degradarem. E essa utopia de que uma grande obra hídrica vai trazer desenvolvimento pode não ser bem assim. Tem forte impacto na área da albufeira, como também a jusante. O problema é que se lançam estas propostas em momentos de aflição para que mais facilmente tenham apoio popular, sem verdadeiramente se discutirem alternativas.