Cresci no contexto da geração punk, fortemente marcada pela rádio e pela dita new wave e o chamado rock português. Além da rádio merece igualmente destaque o jornal Blitz e revistas como a Bravo, estas pelos posters dos artistas. Também tinha destaque o heavy metal e outras sonoridades mais tribais.
Cresci na aldeia, mas acompanhava tudo isso. Sempre fui fã do saudoso António Sérgio e do seu Som da Frente. Havia aquele despique entre vanguardistas e surfistas, dois perfis de gostos e de estratificação social com diferenças. Surgia ao mesmo tempo o que se veio a transformar na dita música do mundo. Em particular os discos da 4AD ajudaram nessa transformação. Cito em particular Le Mystère des Voix Bulgares e a partir daí muitos outros.
Apesar da presença constante de artistas brasileiros em Portugal, não tinha o gosto virado para a música brasileira. Obviamente que conhecia as músicas, só não comprava discos e não ia a espectáculos. Nada contra, mas tinha as minhas preferências. Também é verdade que na região não havia espectáculos com artistas internacionais, somente mais tarde surgem durante a Feira de São Mateus em Viseu. Pelo contrário, os artistas do rock português estavam sempre nas festas do município ou nos vizinhos. Na época as aldeias organizavam essencialmente os bailaricos e festas com bandas amadoras.
Em 1989 passo a morar na região metropolitana de Lisboa. Mudou o acesso a muita coisa, mesmo assim não dei prioridade à música brasileira. Após a vinda para Natal em 2016 tive acesso a outras expressões, intérpretes e autores que me atraíram mais. Sempre gostei de Caetano, Gil, Ney, Roberto Carlos e muitos outros. Mas eu sempre procuro a diversidade. O Nordeste também na música é um reservatório de cultura. Praticamente não conhecia Belchior, Zé Ramalho, Amelinha, Raul, Morais Moreira, Alceu Valença e muitos outros. Sem esquecer a música popular. Quando em 2015 visitei Recife pela primeira vez fiquei apaixonado pelo frevo, sendo que nem sei nem dançar em bailarico. Na música popular não poderei esquecer o baião, de que historicamente é rei Luiz Gonzaga, o forró (sobretudo o pé de serra), o xote, o xaxado e outras que nem sei o nome. Estava a esquecer Flávio José, um dos românticos do Forró.
Paralelamente, também passei a gostar muito da música peruana e no geral da América Latina. A chamada música crioula, designadamente valsa e boleros, são de um romantismo trágico interessante. Em 2016 visitei pela primeira vez ao Peru (Lima e Arequipa) e comprei alguns CDs. A partiu daí passei a explorar diferentes sonoridades. Conhecia O condor passa na versão original, mas era um conhecimento limitado. Adorei conhecwr a música crioula, mas também o tondero e outras expressões de folclore local, e a cumbia peruana. A cumbia escuta-se nos países vizinhos, mas no Peru ganha destaque. A variante Cumbia Amazônica lembra os bailes na aldeia.