A terminar o semestre em Natal duas notícias comoveram a comunidade académica. Em dois dias ficámos a saber do falecimento de duas jovens estudantes. Um dos casos tudo indica que foi enfarto, o que leva ao rubro os anti-vacinas. Ninguém sequer sabe se tomou vacinas, mas logo dissertam. Infelizmente, as causas podem ser várias e o final do semestre pode ser o rastilho para um desfecho trágico.
O outro caso foi, assim dizem, o desfecho de uma situação de depressão. Nunca sabemos o que as pessoas estão a passar. A aparência pode camuflar o sofrimento. A própria condição económica, a luta por alcançar metas que a família e a sociedade pressionam para que aconteçam, sem esquecer muitas vezes a distância da família, tudo isso afecta as pessoas. As universidades não estão a conseguir identificar os casos a tempo, o atendimento de apoio não tem mãos a medir. Infelizmente em alguns casos o desfecho é o de uma vida perdida.
Este semestre vivi e vivo de perto uma situação similar. O filho de uma orientanda minha, neste caso da universidade da Paraíba, tirou a própria vida. Filho único de um casal em que o marido tem outros filhos, não sei as razões. O que sei é que a mãe é uma pessoa que muito estimo e a sua perda está a ser devastadora. Tudo isso deixa cicatrizes nas famílias, nas comunidades e instituições. Outra universidade com a qual colaboro esporadicamente teve um período em 2024/2025 com vários casos que abalaram a comunidade académica. A ocorrência da pandemia, as redes sociais, as pressões da vida, não faltam razões a justificar o desespero. A crise económica e as dificuldades das famílias agravam qualquer sintoma. São necessários amplos planos de acompanhamento e, sobretudo, desmistificar que ir ao psicólogo ou psiquiatra é sinónimo de fraqueza.
Nunca me esquece de uma colega no início do curso de Sociologia no ISCTE. Na época o curso ofereceu duas turmas à noite e ela era da outra turma. Ainda assim falamos várias vezes. Tinha uma situação familiar delicada, a mãe tinha falecido e o pai tentou refazer a vida. Na época a instituição não tinha resposta para o problema dela. Num dos momentos de pausa entre semestres tirou a própria vida. Anos antes um colega de carteira fez o mesmo. Perdi um amigo assim com os meus 12 anos.