Nunca fui o filho ou o neto preferido
Excepto do meu avô por afinidade, padrasto da minha mãe
Nunca vi nisso qualquer problema
Não encaro as afinidades como competição
E desde muito jovem criei o meu próprio universo
Tanto usei uma enxada para cavar terra
Como defini o meu universo estético e universal
Insisti para comprar livros e discos
Fiquei com os olhos colados a velhos jornais
A rádio passou a ser o meu lugar global
Ia para a mata roçar mato ou cortar lenha
Mas também ia para a cidade acompanhar os movimentos
Escutei velhas histórias e imaginei futuras vivências
Não exagerei no argumento, usei o silêncio para escolher as palavras e a observação
Ser o filho ou o neto preferido iria me acomodar
Traria o lânguido do conformismo na acção
Cresci solitário na perda e na decisão
Só não me deixei levar na obediência
José Gomes Ferreira